segunda-feira, 30 de julho de 2012

-

Uma hora todas as mascaras caem. Mesmo quando são feitas por puro desespero, amor ou medo... Ainda assim, hora ou outra a verdade aparece e não se pode fugir das consequências. Cedo ou tarde isso iria, ou vai acontecer.

Amor dolorido.

Quando era pequena, minha mãe me abraçava bem forte, cheirava meu pescoço e dizia baixinho "Eu te amo tanto que chega a doer." E só agora, anos depois, com centímetros a mais, pude entender o que ela quis dizer com isso. Não que eu tenha me tornado mãe e exatamente por isso, dou as devidas distinções que uma relação de mãe-e-filha merece. Mas sinceramente, ao olhar sua foto hoje pela manhã só consegui lembrar do sussurro de minha mãe... É que eu te amo tanto que chega a doer. E me contorce as vísceras, me corrói o peito, me desmonta o equilíbrio essa dor que é te amar. Estava tudo em perfeita harmonia, eu me refugiava a qualquer resquício alheio para esconder o que realmente se passava, até a sua foto aparecer, os lábios finos e pontudos, o olhar sério de quem impõe respeito. A mesma cara mandona de quem me ordenava o que eu nunca obedecia. Seus termos só resultam em um peito que sufoca diariamente um amor dolorido.

Voltar...

- Eu não vou voltar atrás e isso é tudo o que tenho a dizer.

Mentira. Havia muito mais. Alguns venenos destilados, talvez uma ou outra ameça, mais com certeza muitas verdades que deveriam ser ditas e relembradas já que parecem ser apenas fruto de minha imaginação. Essa relação deveria resultar em muito mais, e nós definitivamente deveríamos aprender a ser só um pouco menos doentios. Não que eu esperasse um mar de rosas, um amor perfeito, uma convivência genuína. É só o básico, consegue me entender? Não. Não consegue. Não conseguiria mesmo que eu voltasse e dissesse tudo, mais uma vez, para você. No auge de sua estúpida arrogância e irremediável ignorância, você só enxerga a si mesmo. Vivi rodeado de silêncio e solidão, colhendo o fruto de me fazer não voltar...

Sozinha.

Se dói? Claro que sim. Corrói, sufoca, enjoa. Mas eu aprendi desde os quatro anos a ser assim. Egoísta. Digo e repito quase sempre esse fato, a mesma idade que me fez aprender a realidade dura das coisas. Dessa vida que não passa de uma piada sem graça, uma brincadeira de mal gosto, um erro e nada mais. Sem depressão, drama ou qualquer charme que possa parecer... Me incomoda, claro que sim. Saber que você nasce sozinha, morre sozinha e sinceramente, vivi sozinha. Nós não somos sapatos, nós não possuirmos pares e essa conversa de pré destinação, amor de outra vida, blablablá, tudo balela de mídia televisiva ou religião folclórica. Suas atitudes, suas decisões, sua moral e ética, são suas. A contradição também, já que eu, por exemplo, não passo de uma vagabunda moralista. E novamente, repito: Não ache que desdenho de mim ou de qualquer outra coisas nas palavras ranzinzas e mal humoradas de uma pessoa que tem o pessimismo como aliado e talvez, melhor amigo. Vamos lá, olhando por esse ângulo, não estou sozinha, então?

Remédio para o irremediável.

Gaúcho.

O jeito calmo, ranzinza e principalmente calado, condena que ele realmente nasceu em uma cidadezinha do interior. O sotaque bem carregado também, mas sinceramente, não conheço a capital do Rio Grande do Sul pra dizer se eles falam menos aquele "dai" do qual tanto reclamei. Foi assim, no primeiro dai.
- Tá frio né?
- Não acho, dai.
Pus as mãos dentro do casaco e tremendo perguntei como podia ele não estar sentindo todo esse frio. Ainda mais nessa cidade que não entende a distinção de verão e inverno. Todos os dias ensolarados nos fazem uma semi hipotermia quando resolvem deixar o frio vir. Não entrarei em conversas e detalhes meteorológicos, já que se trata dele. O gaúcho.
- Me empresta o fogo?
Soprou a fumaça, me olhou de canto, pôs a mão no bolso e me entregou. Não parecia estar a fim de conversa. Acendi um cigarro e devolvi o esqueiro.
- Achei que tu ia fazer uma fogueira, guria. Não sei porque vocês sentem tanto frio.
- Você está aqui a quanto tempo?
- 15 dias.
- Então, nós somos acostumados com o calor. Você vai perceber isso! E quando o tempo muda... Enfim, entendeu?
- Entendi.
Permanecemos ali até o meu cigarro acabar, junto a cerveja que ele tomava ainda sem se importar com o frio que gritava me mandando de volta para casa. Me despedi com um sorriso, joguei a binga no chão e cruzei a rua para pagar a conta do bar.

Duas semanas depois, lá estava ele com sua camisa do Grêmio. Meio recluso e solitário na mesa. Já havia bebido algumas doses de vinho, puxei a cadeira e sentei de frente para ele.
Seria impossível narrar um dialogo de aproximadamente quatro horas. De filmes à promiscuidades passadas, ri como a tempo não fazia. E acabamos em seu apartamento. Ele abria a garrafa de vinho enquanto olhava sua estante de livros.
- Posso me perder aqui?
- Pode. Só deixo porque tu tem muito bom gosto!
"Será que para homens também?" Pensei. Acho que não, porque desde a primeira vez que o vi sabia exatamente que estava me metendo em uma furada. Uma das melhores na cama, mas definitivamente, uma furada.

Irônico foi descobrir que o nome da cidade era "Santa Maria" enquanto ele era um bom ateu, fã de Whisky e Bukowski... Fodedor de mocinhas à mulheres casadas.

Me perdi tanto que só fui achar minha calcinha em cima do LP do Oasis, as 6 da manhã. Um barulho estridente de buzina vindo da rua, olhei pela janela do 8º andar. Senti uma vertigem enorme da ressaca que se aproximava. Quando olhei para trás, ele vestia a cueca e também tentava abrir os olhos.
- Hoje é segunda-feira.
- É... Eu me lembro. Eu preciso trabalhar.
- E eu também!
- Tem uma padaria a duas ruas daqui.
Ele concordou com a cabeça e não falamos mais nada. Não trocamos telefone, não sorrimos mais. Após comer um misto quente, e ele tomar seu café com aspirina, cada um foi para seu caminho com um aperto de mão e pelo menos eu trabalhei até as 6 da tarde, rezando pela cama que me esperava em casa.

Os cachorros haviam bagunçado tudo, meus livros estavam empoeirados e minha pilha de roupa suja chegava a um metro de altura. Minha ressaca só começava a se despedir agora e no meio do caos, o sotaque gaúcho ecoava. O jeito pretensioso de ser um cafajeste e dizer com todo orgulho do mundo que seu estado era o melhor... Entrelinhas, ele se dizia o melhor. Em tudo. Pelo menos em humildade, eu já sabia que não. Já na cama...

- Sinto falta das cervejas de lá. Deu de Heineken e Stella, é só isso que vocês tem?
- Eu gosto das brasileiras. Da Antárctica, pro exemplo.
- Tu quer mesmo discutir sobre cerveja, lindinha? Aposto como conheço tudo sobre várias que você sequer ouviu falar.
- Então tá bem.
Peguei minha Stella e me retirei do balcão. Ele não moveu um músculo, um gesto, um fio de cabelo, durante meia hora, como se estivesse brincando de estátua. Um amigo cruzou a porta. Sim, amigo que nunca havia me levado para a cama. Como todos os outros caras do bar, tirando o gaúcho com marra de carioca. Então me excedi, como sempre fiz e o amigo me levou nos ombros para casa. Exatamente assim. Me deixou na porta, trancou o portão e os cachorros latiram até o caminho da cama.

- Descobri um lugar que vende várias cervejas alemãs. Está cedo ainda, vamos lá?
Cheguei no balcão, sóbria, sorrindo e com uma enorme saudade do cheiro que ficava bem no seu pescoço.
- Me diz onde é e depois eu vou.
- Claro.
A voz saiu tremida demais, tardia demais, mas automaticamente peguei sua comanda, a caneta na camisa do garçom e anotei o endereço. Joguei os dois em cima da mesa e sai.

- Ei! Olha aqui, eu gostei dessa.
Levantei a garrafa de cerveja, como se ele pudesse ver de longe.
- O que tu ta fazendo guria maluca?
- Ué, tô te gritando... E como a rua ta vazia e eu preciso gritar bem alto para você ouvir daí de cima, os vizinhos chamarão a polícia em provavelmente 3, 2, 1...
- Fica calada! Já vou abrir pra ti.
Me concentrei em não sentar no chão e permanecer o mais sóbria que poderia falsamente aparentar.
- O que tu quer?
- Entrar. Sabe, tá frio. Né?
- Não. Nem um pouco.
- É, eu sei. Mas eu quero entrar. Mas... Tá, se você não quiser... Eu já estou indo.
- Entra.
- Essa cerveja é muito boa.
Joguei a garrafa em seu peito, ele segurou, depois minha mão quando no primeiro passo para dentro da porta do seu apartamento, eu tropecei.
- Está bêbada.
- Muito.
- Esqueci de te avisar que elas são mais fortes.
- Quem?
- As alemãs, maluca!
- Você é um idiota!
- Tu também.
- Mas é bom de cama.
- Tu também.
- Então me fode.
A garrafa espatifou no chão, mais um vizinho para reclamar, mais alguns cachorros para latir. Suas mãos agarraram minha cintura, desceram pelas cochas, e subiram junto com a minha saia. Me pegou no colo.
- Me dê um bom motivo para te foder.
- Ué, tu acabou de dizer que eu sou boa de cama.
- E é. Mas eu vou te foder porque tu acabou de dizer "tu" e ficou uma graça com esse biquinho.
- Copiei teu sotaque.
- Mas gosto do seu, principalmente quando me pede pra te foder.
- E quando eu faço você me foder?
- Faz? Como?
Imprensei meu quadril no dele, minhas unhas nas suas costas, minha boca na sua orelha, minha boceta no seu pau. Apertei, fui mais fundo. Pôs minha calcinha pro lado, enfiou. Com mais força, com mais velocidade, com mais vontade. Gemia, batia, mandava. De quatro, de lado, de língua dentro.

- E ainda temos fama de viado!
- Tem mesmo.
- Por isso te comi melhor que os cariocas?
- Não tenho resposta para isso.

Seus dedos dos pés encontraram os meus debaixo do edredom, respirou fundo e então sussurrou:
- Tá frio, né?

Sina.

Longe de toda a madrugada, de todo álcool, de todos os homens. De toda e qualquer pretensão que alguém me desejasse. Com os fios de cabelo no rosto, o olhar baixo, as pernas que se jogavam no banco do lado sem modo algum. Lá estava, com minha camisa larga do AC/C, minha havaiana velha herdada de algum cara que esqueceu no meu apartamento e meu livro do Bukowski, Crônica de um amor louco. Me senti Janes Joplin em sua cidade natal, tendo de permanecer nessa cidade pequena onde tudo e todos são altamente previsíveis. A diferença, era nenhuma cidade de São Francisco para me salvar e nenhuma heroína para me matar. Como se minha sina fosse viver inerte nessa depressão pós eu. Pós o ser que esquecera de ser quando estava sóbria.

Ignorar.

Respira fundo, forja um mantra, escuta um rock, fuma um marlboro, bebe um whisky. Finja de submeter, finja entender, finja não ligar. O desprezo as vezes é fundamental. Eu realmente não gostaria de me importar com os olhos superiores que me cruzam. Os comentários venenosos ou as más interpretações alheias. Mas é de mim querer ser melhor. E agora começo a perceber, que melhor é ser superior e ser superior, as vezes, só consiste em ignorar.

Por fim.

A mesma pilha de roupa suja que se junta ao aglomerado desordenado onde deito e durmo todas as noites. Abro as janelas para o cheiro de cigarro parecer menor. Saio sem saber para onde ir, apenas querendo fugir de uma família neurótica com pensamentos mais neuróticos ainda. O tipo de coisa que quando somos mais novos, parece o fim do mundo, mas agora só faz parte do mesmo caos que esse quarto sujo. Não bastasse todos os consecutivos, intermináveis e irremediáveis problemas que finjo esquecer em mais um copo, uma psicopata viciada em cocaína se apaixona por mim. E nas suas palavras desconexas, levanto da mesa e vou embora. Deixando-a perplexa desnecessariamente, já que até ela, no auto de sua insanidade deveria perceber que loucura por loucura, minha ex psicologa entrou em depressão profunda e quase matou o marido depois de algumas conversas comigo. Talvez tenha virado lésbica. Não sei. Dois quarteirões parecem uma eternidade, as ruas escuras, mal cheirosas, com alguns bêbados caídos no churrasquinho deprimente da rodoviária. Vou caminhando para meu último abrigo, minha segurança... Você está pendurada na janela. Grito, esperneio, me contorço de raiva, me enfureço, xingo... Você continua, achando graça de se pendurar do terceiro andar sobre fios de alta tenção. Por fim, sento, quero chorar, mas minhas lágrimas secaram a algum tempo e tudo que consigo fazer agora é dar três passos e me jogar na frente de um carro que passa na avenida.

The Fixer.

- Agora nós faremos uma coisa que acontece em todos os shows. Vamos chamar duas pessoas que não se conhecem para subir aqui em cima e se beijarem. Mas não me enganem!
Pegou a garrafa de vinho, bebeu no gargalo e junto com ele, virei minha heineken. Gritei sem pretensão de ser notada, mas o lugar não tão grande tinha apenas duas fileiras aglomeradas de pessoas que nos separavam, então ele ouviu.
- Pode gay?
- Oi?
- Pode beijo gay?
Repeti automaticamente, sem perceber que todos já nos olhavam. Ele de cima do palco com a garrafa na mão, eu embaixo imitando a pose.
- Pode. Pode sim! Qual seu nome?
- É Lívia.
- Vem aqui, Lívia.
O rosto vermelho, o coração acelerado, santa vergonha na cara que me resta. Todos me olhavam, caminhei, subi. Cheguei mais perto dele, sob o palco pequeno do bar.
- Na verdade eu só subi aqui pra te pedir uma música. Toca "the fixer" pra mim, por favor.
- Pode deixar.
Toda essa atmosfera do bar, os quadros do Rolling Stones a nossa frente, o mural do Oasis atrás e em cima, um manequim da Janis Joplim pendurada. Meu devaneio, sua garrafa de vinho... Era tão Gabito Nunes.
- Rômulo, vem cá!
Um homem levanta a mão na platéia. Vem andando de encontro a nós. Ameaço descer do palco. Rindo, nervosa.
- Não. Você não entendeu. Eu só vim pedir a música... Eu não vou beijar ninguém. Espera, nem mulher é!
Ele riu, chegou perto, fora do microfone.
- Vocês vão ganhar uma cerveja, veja pelo lado positivo.
- Não vou beijá-lo, cara. Desiste.
- Tá. E na bochecha?
- Vai me pagar a cerveja?
- Vou.
- Então está bem.
Abracei o tal rapaz Rômulo que até não era de se jogar fora. Me beijou na bochecha rubra de timidez temporária, pensava em outra garrafa de Heineken gelada já que a minha acabou e o dinheiro havia terminado antes dela. Desci com o bendito Rômulo atrás, tagarelando qualquer palavra junto a minha ignorância.
- Desculpa.
- Oi? Desculpa o que?
- Você ouviu algo que eu falei?
- Sinceramente não, mas está desculpado, Rômulo, né?
Não esperei uma resposta, apenas voltei ao ponto de antes, com as companhias de antes, perguntando aonde se enfiou a minha cerveja já que o vocalista havia voltado a imitar o Eddie Vedder.
Duas músicas depois, ele aponta para mim.
- Agora eu vou cantar The Fixer, a pedidos da namorada do Rômulo, a Lívia.
Um fanático gritou ao meu lado junto comigo. Não o conhecia, mas cantamos aos berros cada frase da letra. No meu inglês mais dignamente precário possível.
Foram 30 músicas, o show foi ótimo, a banda maravilhosa e o guitarrista dispensou qualquer comentário ou adjetivo qualitativo.
Na fim da última música, antes mesmo do agradecimento, as pessoas já estavam indo embora. Quase 3 e meia da manhã, encostei no balcão, bebi minha tequila, depois uma vodca, queria mesmo a cerveja, mas como não estava pagando, consentia com o que me davam.
- Aquele dali é o vocalista, né?
Alguém diz do meu lado, ele estava saindo do banheiro, algumas últimas pessoas pagavam a conta do bar enquanto os funcionários já retiravam as mesas.
- Oi...
- Oi!
- Você me deve uma cerveja.
Ele se vira para o balcão, já nitidamente alcoolizado.
- Desce duas Buds, por favor!
Eu não sei bem como a conversa fluiu a partir daí, nem em que horário fomos expulsos ou eu descobri que na verdade, o vocalista de uma banda digna de cover para o Pearl Jam, na verdade era um professor de odontologia.
O Rômulo aparece, brincando com o vocalista.
- Vocês são primos?
- Somos. Como você sabe?
Eles não pareciam em nada, mas também tenho primos, e as brincadeiras, comentários, sacanagem, são os mesmos clichês de sempre.
- Chutei.
O Rômulo se vira para falar só comigo.
- Agora você está me ouvindo, né? Desculpa pelo que ele fez... Ele só queria me sacanear por saber que você nunca ficaria comigo.
- Não é nada pessoal cara.
Então o vocalista voltou para a cena, puxando o braço do primo e colocando para lá.
- Você canta muito bem, mas deveria parar de tentar imitar o Eddie. Cante com a sua voz, vai ficar melhor.
- Você acha?
- Acho.
- Sabe, eu vou martelar isso por aproximadamente uns três anos com minha analista.
Um homem robusto bate no ombro dele, só estão alguns amigos meus embriagados, outras pessoas da banda e uns três caras que discutiam comigo sobre quem-era-quem sobre bonequinhos de barros representando vocalistas conhecidos. O Bono Vox e Jimi Hendrix eram nítidos, já uma boneca loira e estranha não podia ser - e não era - a Janis Joplim. Obviamente a discussão se arrastou por quase uma hora. Um homem de meia idade estava ao lado da prateleira onde os bonecos se encontravam. Então comenta:
- Você conhece muito de música para sua idade... E você tem razão, o boneco da esquerda não é o Mick Jagger como estão dizendo, é o Jim Morrison.
- Você acha mesmo? Estava começando a achar que só eu conseguia ver o Jim ali.
- Acho. Mas concordei mais porque você é muito bonita.
- E o seu comentário é no mínimo um tanto idiota.
Levanto do balcão. Mais indignada com o fato de só eu enxergar o Jim ali, como podem confundir o Mick Jagger com ele? Como podem?
Tudo está uma confusão, os grupos se misturam, mas o vocalista está sentado no mesmo lugar e volto, terminando a cerveja.
- Você me lembra um texto do Gabito Nunes. Você não deve conhecer.
- É, realmente não. Nos últimos três meses, tudo está de cabeça para baixo e sequer tenho tempo para ler. Mas é sobre música?
- Não... Mas ele tem bom gosto...
- Isso já conta muito.
- O que aconteceu nos últimos três meses?
Ele me aponta a mão que reluz uma aliança grossa dourada. Vira a cerveja.
- O que fazer quando você goza e a mulher não? Continua mesmo sem vontade para satisfazê-la ou para e diz "se vira"?
- Assim, eu não sei muito sobre ejaculação precoce.
- Mas isso não é comigo não. É com o baterista aqui do lado, que está querendo ouvir uma opinião feminina, mas está com vergonha de te perguntar. Enfim, já deu pra confiar na sua sinceridade.
O baterista, já também bêbado e escondido atrás dele, me olha sobre os ombros. Volta para frente.
- É sempre sobre o amigo né? Ok, conta outra.
- Eu não gozo rápido, só pra você saber.
- Por que estamos conversando sobre isso? Tá, escuta. Refaz a sua pergunta e pensa como seria se fosse o contrário. Quando o cara se propõe a comer uma mulher, que faça direito e só pare quando a satisfazer. Por Deus.
- Mas isso seria uma obrigação.
- Então não comece. Se quer um ato egoísta, bata uma punheta vendo redtube. Mas qualquer relação sexual, mesmo que você sequer saiba o nome da pessoa, requer de você um comprometimento com o orgasmo alheio.
Ele ri, bate sua garrafa na minha e bebe um gole. O homem robusto volta, entrando em nosso meio e dizendo:
- Agora é sério. O bar já está fechado.
Não há mais ninguém ali. Meu amigo está do lado de fora, sendo apoiado por outro e mijando na entrada de madeira do bar. Os outros integrantes já estão indo embora. Até o Rômulo está quase dormindo, parado em pé e esperando o primo.
- Perderemos contato, não é mesmo?
- Quando o efeito do álcool passar, serei apenas um professor de Odontologia.
- Boa sorte com suas ejaculações precoces.
- Valeu!
- E ei. O boneco era o Jim Morrison, a loira definivamente não era a Janis Joplin e o nome do escritor é Gabito Nunes. Isso não passará com o álcool.
- Boa noite, cara!
- Boa noite.